Quinta-feira, 20 de Novembro de 2008

O Genoma que veio do Frio


Jornal Público , 20 de Novembro 2008




É um rascunho e ainda não está completo. Mas, pela primeira vez, conseguiu-se determinar a imensa sequência genética do mamute, parente pré-histórico dos elefantes, hoje extinto. Será possível ressuscitá-los um dia? Ana Gershenfeld

Divergiram há cerca de seis milhões de anos", salienta Miller. Também concluem que os mamutes deram origem a dois grupos há dois milhões de anos, que formaram duas subpopulações na Sibéria e que apenas uma delas sobreviveu até há dez mil anos (a outra ter-se-á extinto ha 45 mil).

E mostram ainda que, entre os mamutes e os elefantes modernos, as diferenças genéticas são mais pequenas do que se pensava. "Ao contrário dos humanos e dos chimpanzés, que se separaram mais ou menos na mesma altura e que rapidamente deram origem a espécies diferentes - diz Schuster -, os mamutes e os elefantes evoluíram de forma mais gradual."


Ressuscitar o mamute?


A diversidade genética entre mamutes também era bastante baixa - a tal ponto que os animais poderão ter sido excepcionalmente susceptíveis às doenças e às mudanças climáticas - e aos homens, que os caçavam. Más doenças e clima, por si só, permitiriam explicar o fim da subpopulação que se extinguiu há 45 mil anos, uma vez que o homem nunca chegou a cruzar-se com ela e a exterminá-la (na altura não habitava a Sibéria), como poderá ter acontecido com a subpopulação que sobreviveu mais tempo. Uma parte do debate em torno da responsabilidade humana no fim do mamute poderá portanto estar resolvida. Os cientistas esperam também descobrir no antigo genoma as características genéticas capazes de dar conta da excepcional resistência dos mamutes ao frio extremo. "Esta é realmente a primeira vez que somos capazes de estudar um animal extinto com o mesmo nível de pormenor com que estudamos os animais do nosso tempo", diz Schuster.


Uma coisa é certa: o trabalho agora publicado mostra que é mesmo possível sequenciar o ADN de espécies extintas.


Claro que a pergunta mais empolgante que surge em muitas cabeças é a seguinte: agora que temos o ADN podemos trazer os mamutes de volta? Seria quase como tornar realidade o parque jurássico de Michael Crichton. Nenhum dos especialistas interrogados por Henry Nicholls, num divertido artigo também publicado na Nature, recusa a ideia de que um dia seja possível ressuscitar o velho elefante lanudo.

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