Domingo, 27 de Julho de 2008

Evolução - Como pensar a Biologia sem ela?



Mais um importante livro sobre Evolução. Aliás é o primeiro de três, da responsabilidade de Biólogos da Universidade de Lisboa, com o apoio da Fundação para a Ciência e a Tecnologia e Fundação Calouste Gulbenkian. Este facto é importante para dar à obra em causa um apoio de mero resumo de textos publicados pelos autores e sem alguma validade científica. O que se fala no livro é de Ciência. Fala-se de Biologia e de Ciência.
Nada em Biologia faz sentido excepto à luz da evolução. (T. Dobzhansky, 1973).
A conhecida afirmação em epígrafe é, na nossa perspectiva, válida para a prática científica da Biologia, sendo igualmente válido afirmar-se que nada no ensino da Biologia faz sentido excepto à luz da evolução. É assim que começa a Introdução. E esta é tão importante para quem ama as ciências da Terra e da Vida que eu não pude deixar de transcrever na totalidade. Depois de lerem, vão compreender o porquê!


"Nada em Biologia faz sentido excepto à luz da evolução. (T. Dobzhansky, 1973)

A conhecida afirmação em epígrafe é, na nossa perspectiva, válida para a prática científica da Biologia, sendo igualmente válido afirmar-se que nada no ensino da Biologia faz sentido excepto à luz da evolução.


Porém, nenhuma destas afirmações é consensual fora do contexto científico e académico. Ambas podem ser colocadas no cerne de uma complexa e já antiga polémica - aquela que opõe os criacionistas aos evolucionistas.

A série Fundamentos e Desafios do Evolucionismo que agora se inicia, organizada pelo Centro de Filosofia das Ciências da Universidade de Lisboa e publicada pela Esfera do Caos Editores, surge como reacção à ameaça que actualmente se pressente pairar sobre o ensino do evolucionismo nas escolas portuguesas, concretamente, à pretensão dos criacionistas de introduzir nas aulas de ciências o ensino da criação a par da evolução, ou pelo menos o 'ensino da controvérsia'. Não vamos aqui deter-nos na apresentação dos vários grupos criacionistas e das respectivas doutrinas mas somente destacar o essencial -a origem natural da vida e a sua evolução posterior são amplamente negadas, sendo a origem da vida e das espécies atribuída a um Criador, ou, de um modo vago, a 'causas inteligentes'.

A interpretação literal que é feita dos Textos Sagrados leva certos grupos criacionistas a negar muitos outros conhecimentos científicos, como, por exemplo, a idade da Terra determinada por métodos radiométricos. Até mesmo o heliocentrismo e a forma esférica do planeta são questionados!

Durante muito tempo amplamente circunscritos aos EUA, os criacionistas têm vindo a crescer na Europa e a disseminar as suas crenças com uma facilidade surpreendente. Na verdade, estão presentemente instalados em Portugal, onde planeiam construir um museu criacionista e manifestaram já uma posição favorável ao ensino do criacionismo nas aulas de ciências.
A dimensão que esta posição assumiu em diversos países europeus é de tal modo alarmante que o Conselho da Europa viu-se compelido a pronunciar-se sobre o assunto. Tendo por base um relatório sobre a situação que se vive em certos países (documento 11298 - 8 Junho 2007), a sua Assembleia Parlamentar aprovou a resolução Os Perigos do Criacionismo na Educação (resolução 1580 - 4 Outubro 2007).
Transcrevemos aqui o ponto 19 -
"A Assembleia Parlamentar apela aos estados membros, especialmente às autoridades responsáveis pela educação, para:
1) defenderem e promoverem o conhecimento científico;
2) reforçarem o ensino dos fundamentos da ciência, a sua história, a sua epistemologia e os seus métodos, a par do ensino do conhecimento científico objectivo;
3) tornarem a ciência mais compreensível, atractiva e próxima das realidades do mundo contemporâneo;
4) oporem-se firmemente ao ensino do criacionismo como uma área científica em pé de igualdade com a teoria da evolução e, no geral, resistirem à apresentação das ideias criacionistas em qualquer disciplina que não seja de religião;
5) promoverem o ensino da evolução como uma teoria científica fundamental no currículo escolar"6.

Sucede que um profundo fosso separa as recomendações do Conselho da Europa da realidade que se vive em Portugal.

A série Fundamentos e Desafios do Evolucionismo surge como uma resposta positiva e construtiva que visa contribuir para colmatar esse fosso. O que implica a reacção face à possibilidade de, no nosso país, o criacionismo vir a ser introduzido nos programas de ciências do ensino básico e secundário e o contributo para aprofundar e melhorar qualitativamente a forma como o evolucionismo se encontra contemplado nos programas actualmente em vigor.

Na verdade, é com perplexidade e total incompreensão que constatamos o modo superficial, incompleto e mesmo desadequado como o evolucionismo é neles abordado. Ilustremos.

Quer no programa de Ciências Naturais do ensino básico, quer nos programas de Biologia do ensino secundário, os temas da origem da vida e evolução do Homem encontram-se completamente ausentes.

Ora, como facilmente se compreende, a história da vida na Terra começa com a origem da própria vida. A evolução posterior das primeiras entidades vivas será sempre o segundo capítulo dessa história, a qual tem no aparecimento do Homem um dos capítulos mais recentes.

Significa isto que nos actuais programas faltam dois capítulos absolutamente cruciais para conhecer e compreender a história da vida na Terra. Porquê?

E esta interrogação impõe-se ainda mais quando sabemos que, nos programas do ensino secundário que os actuais vieram substituir, os dois temas estavam contemplados e eram abordados com alguma profundidade.

É pois legítimo que nos interroguemos sobre os fundamentos da decisão que culminou neste retrocesso. Acontece porém que, nos actuais programas, nada é dito quanto aos fundamentos de uma tal exclusão.<

Acresce que, no programa de Biologia-Geologia do 11° ano podemos ler as seguintes orientações: "evitar o estudo pormenorizado das teorias evolucionistas" e "evitar a abordagem exaustiva dos argumentos que fundamentam a teoria evolucionista" .

Ora, também neste caso nos interrogamos sobre os fundamentos destas recomendações. Serão os nossos alunos incapazes de compreender as teorias evolucionistas? Serão os professores incompetentes para as ensinar?
Terão os outros assuntos uma pertinência de tal modo superior (admitindo que é válido hierarquizá-los desta maneira) que o tempo a disponibilizar para o ensino das teorias evolucionistas deva ser significativamente reduzido?
E porquê evitar a abordagem exaustiva dos argumentos que fundamentam a teoria evolucionista?

Não é a existência de argumentação empiricamente sustentada uma condição necessária para uma teoria ser científica! Mais uma vez, as razões que justificam estas recomendações não constam nem se retiram do programa.

Acresce ainda que, no mesmo programa pode ler-se a seguinte afirmação:

"Não há consenso sobre as causas da diversidade dos seres vivos. As teorias evolutivas explicam essa diversidade pela selecção dos organismos mais adaptados, razão pela qual as populações se vão modificando".

Afirmação que é, não apenas imprecisa como inquietante, dado que a causa da diversidade dos seres vivos consensualmente admitida na Biologia é justamente a evolução.

O que não é consensual na Biologia são as causas da evolução, ou melhor, os mecanismos responsáveis pelo processo evolutivo. É neste sentido que se pode falar em 'teorias evolutivas' (no plural, entenda-se), das quais algumas explicam a diversidade dos seres vivos 'pela selecção dos organismos mais adaptados' - caso do darwinismo e da teoria sintética da evolução - mas outras não o fazem - por exemplo, a evolução por deriva genética ou o lamarckismo.

Por fim, no mesmo programa recomenda-se a "construção de opiniões fundamentadas sobre diferentes perspectivas científicas e sociais (filosóficas, religiosas...) relativas à evolução dos seres vivos". Tratando-se de uma disciplina de ciências, quais os fundamentos e as finalidades de nela contemplar 'perspectivas sociais' relativas à evolução dos seres vivos?

Por esta ordem de ideias, podemos (devemos?) igualmente incluir 'perspectivas sociais', por exemplo, na disciplina de Física sobre a teoria da relatividade ou a mecânica quântica, ou na disciplina de Química sobre a teoria atómica?

Não estará aquela recomendação a recomendar, ou pelo menos a sugerir, a introdução de 'perspectivas religiosas' nas aulas de ciências?
Como se fosse um dever do professor de ciências ensinar em paralelo ciência e religião. Um professor que decida contemplar a controvérsia "criação vs evolução" pode muito correctamente justificar-se argumentando estar a cumprir a recomendação de 'construir opiniões fundamentadas' sobre 'perspectivas religiosas'. E por que não fazê-lo?

Na nossa perspectiva, porque as aulas de ciências destinam-se a ensinar isso mesmo - ciência - e embora os critérios de demarcação entre ciência e não ciência sejam difíceis de estabelecer e permaneçam discutíveis, e apesar dos criacionistas já há muito tempo virem apresentando as suas convicções como se de ciência se tratasse, a verdade é que a crença na criação se encontra num território inequivocamente distinto daquele onde se posiciona o conhecimento da evolução.
Fundamentos e Desafios do Evolucionismo surge assim num contexto tripartido - a expansão do criacionismo, a posição de uma instância europeia de referência sobre a polémica "criação vs evolução", a situação do ensino do evolucionismo em Portugal.

Neste contexto, e elegendo como público-alvo professores e alunos sobretudo do ensino secundário e universitário, a série visa três finalidades:

1) contribuir para o aumento do conhecimento e da compreensão do evolucionismo pela generalidade das pessoas;

2) constituir um recurso para professores e alunos no ensino e na aprendizagem desta matéria;

3) alertar os responsáveis pelos programas escolares, para o que atrás ficou dito sobre a gravíssima situação do ensino do evolucionismo em Portugal. "

1 comentários:

Lourenço disse...

A História tem-nos mostrado que muitas das posições sobre determinadas temáticas se devem ao desconhecimento e ignorância sobre as mesmas!

Em parte, isto aplica-se ao evolucionismo - quantos terão criticado Darwin, sem nunca terem lido as suas obras, baseando-se apenas em ideias estereótipadas?(pergunta retórica!);

Ao contrário do senso geral, por exemplo, o conceito de selecção não está necessariamente ligado ao de luta pela sobrevivência; ou a expressão "sobrevivência do mais apto", não deve ser tomada à letra; A selecção deve ser vista mais como uma reprodução diferencial!

Quanto às Ciências Sociais, Darwin procurou distanciar-se sempre delas - evitando, por exemplo, uma tentativa de aproximação de Karl Marx para o campo do Socialismo - pelo que foi muito criticado; quem conhece a história do século XX - eugenismo, holocausto...- não pode deixar de admirar a sua prudência!

Relativamente às implicações que a teoria teve noutros saberes, tal nunca preocupou muito Darwin, pois como Homem da Ciência, estava preocupado com a investigação dos fenómenos naturais e das suas leis de uma forma escrupulosa quanto à verdade científica - E ESSA DEVE CONTINUAR A SER A POSTURA DA CIÊNCIA!

Quando confrontado - insistentemente - sobre a sua posição religiosa não deixa de ser curiosa a sua resposta : "Quanto à minha posição religiosa, é coisa que não pode interessar a ninguém para além de mim..." - E ESSA DEVE SER A POSTURA, POIS É APENAS DO INTERESSE DO PRÓPRIO (a não ser que tal prejudique terceiros!)


Mas se o Bush continuar a bater nas teclas "Deus", "nós somos os BONS", "o EIXO DO MAL", "os MAUS", já se compreendem algumas posições epistemológicas...que se pensavam ultrapassadas!